Geralmente quando falamos da festa dos Tabernáculos nos lembramos da travessia do povo de Israel pelo deserto habitando nas tendas. É pouco percebido pela Igreja atual que o caráter bíblico das festas propõe uma esfera dilatada da linguagem profética.
Os elementos essenciais na festa de Tabernáculos são:
- a Sukah, cabana precária com três lados; as quatro espécies;
- lulav é o primeiro ramo da palmeira, Etrog é uma fruta cítrica, Hadas é a murta, e Haravot é o salgueiro de ribeiras conhecido por nós como Chorão (Estas são as quatro espécies).
Como apoteose da festa temos a libação da água e do vinho, porém, o elemento especial é a representação messiânica da Torah que nesses dias ganha um destaque. A Torah é um livro em forma de rolo contendo os cinco escritos de Moises. Durante a festa, ela é cortejada como a própria presença do Mashiac, faz todo sentido com o evangelho de João no capitulo 1: 14 “E o Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós”.
A realização da nossa festa procura seguir uma sequência onde esses elementos são incorporados da melhor forma possível à nossa realidade, pois as festas estão relacionadas ao culto no Tabernáculo do deserto e depois elas são realizadas no templo de Jerusalém.
O acendimento das lâmpadas (em alusão ao castiçal do templo) é representado por dançarinas que trazem uma chama dentro de um vidro evoluindo uma dança. A entrada de crianças jogando balas para o público faz referência ao texto de Neemias 8: 10 “Disse-lhes mais: Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais; porque a alegria do SENHOR é a vossa força.”
Em seguida entram as bandeiras referindo-se ao texto de Zacarias 14: “E acontecerá que, todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém, subirão de ano em ano para adorar o Rei, o SENHOR dos Exércitos, e para celebrarem a festa dos Tabernáculos”. Nesse momento, entra a comitiva composta por levitas carregando a Arca, o Candelabro, a Mesa e o altar. Pois na festa dos Tabernáculos era encerrado o ano litúrgico e o altar do holocausto era lavado, também lembramos de Davi entrando com a Arca em Jerusalem I Cron 16:1, 2 e 3 “Trouxeram, pois, a arca de Deus, e a puseram no meio da tenda que Davi lhe tinha armado; e ofereceram holocaustos e sacrifícios pacíficos perante Deus. E, acabando Davi de oferecer os holocaustos e sacrifícios pacíficos, abençoou o povo em nome do SENHOR. E repartiu a todos em Israel, tanto a homens como a mulheres, a cada um, um pão, e um bom pedaço de carne, e um frasco de vinho”. Por isso é importante que possamos oferecer aos participantes algum tipo de alimento e celebrarmos um Kidush.
São dispostas de forma convencional as quatro espécies formando duas unidades, na mão esquerda o Etrog, espécie de fruta cítrica e na mão direita o feixe com as outras espécies, dessa forma o sacerdote movia esse conjunto em seis direções, leste, sul, oeste, norte, para cima e para baixo, proferindo uma benção especial. As quatro espécies mencionadas em Lev. 23: 40 aborda os tipos de espécies que foram ordenadas por Deus para serem usadas durante a festa e cada uma dessas espécies tem um significado próprio.
O “molho” (Lulav) representa a benção de Deus principalmente nas áreas onde a maldição do pecado alterou o propósito de Deus, é uma benção cancelando a maldição da Terra e dos homens, o numero 4 é o numero da Terra e o 6 é o numero do homem. O Lulav é a ponta da palmeira, é uma folha ainda fechada apresentando uma forma retilínea, o contexto é que a tamareira, cujo nome é tamar em hebraico, tem um significado de justiça (Gen. 6: 9). A palavra usada para designar a justiça e integridade de Noé é tzadik e tamim respectivamente justo e integro, e significa algo que foi aplainado e se tornou reto, por isso o sentido de retidão, reto como uma palmeira. A palavra tamid, que é usada para discípulo, tem um sentido de aperfeiçoamento, e é de onde procede também a palavra talmude, em Gen 38:26 há uma referencia à justiça de Tamar, nora de Judá, por ter sido mais justa do que ele próprio.
No salmo 92 existe uma conexão direta com o significado do lulav na festa dos Tabernáculos: “Como a palmeira florescerá o justo, crescerá como cedro do Libano plantado na casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus”. O justo aqui é o Mashiac Yeshuah, o ungido de Deus como diz no verso 10 deste Salmo, “fui ungido com óleo fresco”, não se trata de “um justo”, pois não há justo entre os homens, a bênção da Lulav anuncia um reino de justiça e paz.
Etrog é uma fruta cítrica como a Lima da Pérsia, e era considerado um símbolo de formosura, beleza, sabor e cheiro, o salmo 19 faz a conexão dessa fruta com a festa dos Tabenáculos apontando para a restauração da lei. Nos 7 primeiros versículos é apresentada a obra da criação de Deus e o noivo messiânico, em seguida nos 7 outros versículos há uma narrativa de 6 aspectos da lei para os homens: 1) a Lei do Senhor é perfeita, 2) o testemunho de Senhor é fiel, 3) os preceitos do Senhor são verdadeiros, 4) o mandamento do Senhor é puro, 5) o temor do Senhor é limpo, 6) as ordenanças do Senhor são verdadeiras. O Etrog é a beleza da lei, o bom cheiro na pessoa de Cristo (Mashiac).
A Murta está relacionada à quebra da maldição da terra, em Isaias 55 há uma promessa de restauração da terra: “No lugar do espinheiro nascerá o cipreste de no lugar da sarça crescerá a murta”, ou seja a maldição que foi proferida por Deus na queda será desfeita na restauração do reino messiânico.
O salgueiro de ribeiras é uma árvore que seus ramos formam uma cobertura capaz de oferecer sombra e frescor, e no salmo 91 há uma promessa de livramento e segurança. “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Senhor Onipotente descansará”. É a vitória sobre o diabo e seus anjos narrada em Apocalipse 12, “Agora chegada está a salvação [...] e eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra de seu testemunho…”.
O texto do evangelho de João no capitulo 7: 37 narra a participação de Jesus na festa dos Tabernáculos, o fato histórico é que nesse dia o sumo sacerdote junto com grande comitiva descia por uma escadaria que ligava o templo de Jerusalém direto ao tanque de Siloe (Shiló), onde eram cheios cântaros de água. A comitiva quando ia e vinha cantava o salmo 118, a cada 15 degraus era repetido o estribilho: “Daí graças ao Senhor porque Ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre”, então o sumo sacerdote juntava num vaso de ouro água e vinho e derramava sobre o altar (essa é a libação). A cena descrita em João 7, Jesus saltando no meio da multidão e gritando “Quem tem sede vinde a mim e beba”, gerou grande comoção entre os que estavam no templo. Muitos confirmavam que ele era o Messias, pois o sentido temático da festa se tornou claro para os que estavam familiarizados com as escrituras e com aquele ritual.
A libação representava a benção da chuva sobre a nova safra, por isso a festa tem um grande componente de prosperidade, em Zc. 14 há uma benção para os que subirem a Jerusalém na festa dos Tabernáculos.
16- “E acontecerá que, todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém, subirão de ano em ano para adorar o Rei, o SENHOR dos Exércitos, e para celebrarem a festa dos Tabernáculo”.
17- “E acontecerá que, se alguma das famílias da terra não subir a Jerusalém, para adorar o Rei, o SENHOR dos Exércitos, não virá sobre ela a chuva”.
A Festa dos Tabernáculos se tornou um dos momentos mais felizes do ano litúrgico judaico. A antiga literatura judaica (Flávio Josefo, no seu livro Antiguidades Judaicas, e o Talmude) descreve como era a celebração dessa festa nos dias do segundo templo em Jerusalém. Multidões de peregrinos vinham de todas as partes de Israel e do mundo e chegavam a Jerusalém em caravanas coloridas e festivas. Uma vez em Jerusalém, eles preparavam e habitavam em tendas de ramos ao longo das ruas, no pátio do templo, sobre os telhados das casas, nos montes e vales ao redor da cidade. A cidade de Jerusalém estava toda decorada com ramos de oliveira, palmas, salgueiros, frutas frescas e flores. Os peregrinos levam sempre consigo ramos de palma e murta que agitavam com alegria enquanto participavam no templo, dos serviços religiosos, das orações e do cântico do Halel – a coleção de salmos de louvor (Salmos 113-118).
A cerimônia mais marcante da festa era intitulada “O Regozijo no Local da Retirada da Água” (em hebraico: Simchat Beit haShoavá). Durante o ano, a cada dia, após o sacrifício ter sido queimado, uma oferta de vinho era derramada sobre o altar (chamada geralmente de libação). Durante os dias da Festa de Tabernáculos, além da libação de vinho, era derramada também uma de água. A cada manhã da festa, os sacerdotes faziam soar as trombetas, de modo longo e penetrante aos primeiros raios do sol. O povo se despertava então para mais um dia com exclamações de alegria e júbilo. Os sacerdotes desciam então ao tanque de Shiloach (“Siloé”), levando consigo um frasco de ouro para enchê-lo de água, e retornavam ao templo de forma cadenciada e pausada, ao som das trombetas. Após o sacrifício e após ser entoado o Halel, os sacerdotes segurando os ramos e frutos da terra prescritos em Levítico 23, rodeavam o altar de bronze, o qual estava adornado com ramos frescos de salgueiro e recitavam as palavras do Salmo 118:25: “Oh! Salva-nos, Senhor, nós Te pedimos!” O sacerdote responsável pelo serviço do dia subia a rampa do altar de bronze e derramava a água do frasco de ouro sobre uma bacia de prata e vinho sobre uma segunda bacia. Na seqüência, de forma simultânea, o conteúdo de ambas bacias era derramado sobre o altar e todos os presentes inrrompiam em júbilo exclamando: “Eis que o Senhor Deus é a minha força e o meu cântico (…) Vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação” (Isaías 12:2-3). Na tradição judaica, esta cerimônia comemorava a “Rocha” da qual brotou “água viva”, que acompanhou os israelitas durante a sua peregrinação no deserto (Êxodo 17:1-7; Números 20:2-13; 21:16-18) e que era símbolo de Deus e do Messias.
A segunda cerimônia mais marcante da festa ocorria de noite. Quatro grandes candelabros de sete braços, contendo no topo de cada braço vários litros de óleo e pavios feitos de vestes sacerdotais desgastadas, iluminavam toda a área do templo e a cidade de Jerusalém. Uma orquestra tocando flautas, harpas, címbalos e tambores, acompanhava uma procissão de tochas, na qual havia danças e grande regozijo entre os peregrinos. Enquanto isto, o coral de Levitas, posicionado nas escadarias internas do templo entoava os “Salmos de Ascensão” (Salmos 120-134). Estas cerimônias noturnas eram momentos de grande alegria e marcavam profundamente o espírito da festa.







